Mercado de Açúcar e Etanol em 2025 e Perspectivas para 2026.
- Gabriel Martins

- há 2 dias
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O ano de 2025 começou com o setor sucroenergético brasileiro finalizando a segunda maior safra de sua história — e, possivelmente, a mais resiliente. Trazendo um pouco de contexto, em 2023 a entressafra foi marcada por estiagem severa, e, já em agosto do ano seguinte, em pleno pico de moagem, queimadas atingiram parte dos canaviais. Se por um lado a qualidade da matéria-prima foi prejudicada, gerando dificuldades na cristalização e redução potencial do mix açucareiro, por outro, o clima seco permitiu um avanço acelerado da colheita, que atingiu ~ 622 milhões de toneladas.
Com o início de 2025 ainda sob chuvas tímidas, instalou-se a polêmica que pautaria o início do ano: a safra 25/26 seria ainda mais prejudicada, em um momento de busca por maximização do mix açucareiro? As dúvidas eram legítimas, dado que, desde a pandemia – excluindo pontualidades -, o açúcar vinha remunerando substancialmente mais que o etanol no estado de São Paulo.
Esse cenário alimentou uma visão altista entre diversos agentes — que, historicamente, tendem a precificar catástrofes no Centro-Sul. Naquele momento, os preços ainda negociavam acima de 18 c/lb. Além disso, o cenário internacional parecia reforçar a tese de escassez: a Índia, segundo maior produtor mundial, vinha de uma safra com resultados aquém do esperado, – 26,1 MMt na safra 24/25 (out-set) ante 32 MMt na 23/24 – além de destinar parte da produção para etanol.
O cenário global apontava para um déficit na visão de diversas casas de pesquisa, ocasionado justamente pela quebra de safra na Índia, dado que na maioria dos outros grandes produtores (China, Tailândia, Estados Unidos etc.) houve estabilidade na oferta.
Entretanto, talvez tenha residido aí o erro central: o mercado raramente precifica o que já aconteceu — ele precifica o que tem maior probabilidade de acontecer.
Antes mesmo das monções deste ano (jun-set), o IMD (Instituto Meteorológico da Índia) indicava chuvas acima da normalidade, em uma janela crítica para a recuperação dos canaviais. Além disso, os reservatórios hídricos já estavam abastecidos após as boas chuvas de 2024, o que permitiu provável expansão de área plantada. Assim, as perspectivas para a safra 25/26 indiana, que se iniciou há pouco, tornaram-se rapidamente otimistas. Outros grandes produtores, como Tailândia e China, também apresentavam – e ainda apresentam – projeções positivas.
Quando o pessimista não se concretiza, resta ao preço cair.
Diante de um cenário externo construtivo, e da possibilidade de o Centro-Sul não entregar o desastre projetado por muitos, uma pergunta se impôs: se a safra brasileira não colapsasse, o que sustentaria preços elevados?
O que se viu confirmou o raciocínio. Embora a qualidade da matéria-prima tenha reduzido a concentração de açúcares (ATR em queda de 4,31% frente o período anterior), não se materializaram dificuldades relevantes para cristalização. Pelo contrário, o setor caminha para um mix açucareiro elevado, com um acumulado de 50,74% até a segunda quinzena de janeiro.
O clima seco, particularmente no pico de safra, permitiu um avanço expressivo da moagem — o que levou diversas usinas a encerrarem operações antes do previsto: até a primeira quinzena de dezembro, 30 unidades a mais haviam finalizado as atividades em relação ao ano anterior. Ao que tudo indica, o resultado da safra 25/26(abr-mar) se aproximou do cenário mais otimista, acima das 600 milhões de toneladas de cana.
Oferta abundante no hemisfério sul + perspectivas positivas no hemisfério norte = queda de preços.
Essa combinação explica uma parte da correção. Contudo, o movimento observado no mercado foi muito mais agressivo do que os fundamentos sugeriam. Os preços caíram abaixo da paridade de importação na China, quando próxima dos 17 c/lb. Também, a queda superou o nível equivalente do açúcar doméstico na Índia, quando ao redor dos 19 c/lb — desestimulando exportações. Não bastando, ainda foi rompido o suporte garantido pelo nível equivalente ao etanol em São Paulo, entre os 16 e 17 c/lb na época.
Isoladamente, esses fatores deveriam oferecer suporte robusto ao mercado. Mas o mercado financeiro raramente joga limpo.
A dinâmica especulativa do setor.

Os fundos especulativos aproveitaram uma fragilidade estrutural: devido ao otimismo para os preços, boa parte das usinas havia deixado de fixar preço antecipadamente — criando necessidade futura de venda na bolsa para honrar compromissos comerciais. Sabendo disso, os fundos construíram uma das posições vendidas mais expressivas em muitos anos, de -169.874 lotes antes do shutdown americano (23/09), trazendo os preços para os patamares baixos que vemos atualmente, à medida que permanecem fortemente vendidos.
E o etanol, poderia ser a válvula de escape?
Dificilmente. A produção de etanol de milho segue em expansão, reduzindo a necessidade de desvio de cana para o biocombustível. De todo modo, mesmo com o etanol possivelmente remunerando mais que o açúcar durante a maior parte da safra 26/27, os preços do biocombustível podem não ser atrativos o suficiente para garantir margens positivas.
E agora? Perspectivas para 2026.
Enquanto os fundos visualizarem o mesmo quadro de oferta elevada, perspectivas para os preços de etanol pouco atrativos e fixações atrasadas, não há motivos para inverterem a mão. No máximo, realizarão lucros de forma esporádica, produzindo movimentos de alta pontuais, que, eventualmente, alimentarão alguma esperança.
Para uma reversão estrutural, será necessária uma evidência clara de escassez, como uma quebra de safra relevante em importantes produtores de açúcar. As projeções indicam o oposto, com recuperação na moagem no Centro-Sul, Índia e Tailândia, bem como estabilidade em outros importantes produtores. A virada de mix no Centro-Sul pode garantir algum suporte, mas não o suficiente para mudar o mercado de direção consistentemente. Assim, a tendência dominante segue pressionada, com o mercado precificando abundância — não escassez.
Preparação é saber escolher para onde olhar.
A preparação para a safra 26/27 passa menos por tentar prever tudo e mais por definir quais cenários realmente importam para o seu negócio.
Empresas mais maduras não acompanham mais informação. Elas acompanham melhor.
Como transformar cenário em decisão?
Na Agroboard, o trabalho começa exatamente aqui: ajudar usinas e tradings a conectar cenários relevantes com decisões reais de operação e risco.
Não para prever o mercado, mas para chegar à safra com critérios claros, sabendo:
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Entenda quais cenários merecem atenção real na preparação para a safra 26/27.
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